Novembro de 2000 . Numa tenda instalada e num espaço arquitectónico feito especialmente para o efeito em coordenação com o arquitecto luso-francês Didier Fiúza Faustino, (um dos fundadores e primeiro Co-Director com Dinis Guarda do evento) no centro da cidade de Lisboa, em plena Praça do Marquês de Pombal, milhares de pessoas dançam ao som de propostas refrescantes, como Aphex Twin, Chicks On Speed, Pan Sonic, To Rococco Rot, DJxDJ, People Like Us ou Kid 606, entre outros, vindas de diversos pontos do globo. A juntar a estes projectos os portugueses Space Boys, Micro Áudio Waves, Expander, Satúrnia... Durante cerca de 20 dias: a cultura multimédia dava um dos seus primeiros passos em Portugal com uma programação excepcional. Desta a primeira mostra de videoclips de Chris Cunninghan realizada em Portugal, (organizada pelo próprio); um ambicioso ciclo de cinema experimental no cinema King, com Michael Snow, Harum Farocky, Alain Cavalier, Stephen Dwoski, Vincent Dieutre; uma mostra do trabalho vídeo de Luciana Fina que mostrava novas direcções visuais, e principalmente uma procura de novas linguagens digitais, feitas em Portugal e de todo o mundo a maior parte destas mostradas pela primeira. Mas havia mais Daniel Miller, o fundador da editora mítica MUTE records, o arquitecto francês François Roche,os responsáveis pelas editoras Warp e Fat Cat, o coreógrafo Jerôme Bell, entre muitos outros. Os dias de tempestade que se abateram sobre a cidade durante a duração do evento contrastam com o ambiente suado e cosmopolita vivido neste espaço construído de raiz para este Festival OVNI , junto à estátua do Marquês de Pombal, com o rio Tejo a servir de pano defundo. O Festival, inaugurado por Sua Excelência o Presidente da República Jorge Sampaio, atingiu neste ano cerca de 10.000 pessoas de impacto directo, em toda a sua programação (com duração de 24 de Novembro a 7 de Dezembro ). Um circo multimédia chegou à cidade e apanhou de surpresa a população. O "Número Festival - Festival Internacional de Arte(s) Multimédia, música e cinema de Lisboa" acaba de nascer.
Organizado pela revista "N_NÚMEROMAGAZINE_PORTUGAL" da associação e editora "Número - Arte e Cultura", o "Número Festival" é um evento multidisciplinar que veio preencher uma lacuna no panorama cultural português. A criação de um espaço de mostra, criação, produção e reflexão de ideias com vista à projecção de novas realidades, manifestadas por diversas linguagens, que tem como objectivo estimular o interesse e a reflexão pelas artes de cariz multimédia, associadas às ciências e às tecnologias de ponta e, consequentemente, despertar a atenção da imprensa nacional e estrangeira. O conceito é simples: promover a sociedade numérica numa comunhão entre artistas, cineastas, músicos, produtores e cientistas e o público e as indústrias (música, cinema, jogos, entertainment , universidades, escolas, empresas várias de conteúdos...) a estes ligadas num espaço e numa plataforma ideológica comum.
Em 2001 , 28 de Novembro a 2 de Dezembro (a sua duração mais curta até à data, mesmo assim com um público de cerca de 9000 pessoas), o "Número Festival" ruma ao Pavilhão Carlos Lopes e, na tentativa de captar diversas audiências e anular o cenário apenas direccionado para a música electrónica de outrora, alia o saudosismo de Patti Smith que dá um memorável concerto e recital de poesia, onde se ouviu também Fernando Pessoa... (foi a primeira vez e única desta ímpar personalidade artística norte-americana em Portugal) ao espírito electrónico e irreverente dos nova-iorquinos Fisherspooner, do guro Dj Hell, de Miss Kittin, The Hacker, 4Hero, Scanner, Safety Scissors, Jan Jelinek, Jonas Bering, LT NO, Bentley Rhytm Ace, Panacea da mítica organização Caipirinha e muitos mais... Por esta edição passou na altura, ainda incógnito, o guru do videoclip e cineasta Michel Gondry, na altura ainda pouco conhecido, estreando mesmo a sua, até então, única longa metragem "Human Nature" em Portugal. "Sociedade Fast Forward - The Numeric and Post-Human World" dava o mote e a organização alargava o leque de actividades, elaborando um ciclo de conferências em torno do tema em questão, com convidados nacionais e internacionais e membros das revistas europeias francesas, eslovenas e austríacas... Os projectos portugueses @C + LIA, Mécanosphère, Micro Audio Waves, mostra de videoclips portugueses (António Olaio...) e a performance de Paulo Henrique e Rui Murka mostraram um trabalho de cruzamento interdisciplinar assente no multimédia. Foram ainda estreados ou apresentados filmes de Amenabar, Alex de la Iglesia, Iara Lee...
Nos anos seguintes, a organização do evento refinou a fórmula e desenvolveu um conceito que ousou ultrapassar as fronteiras do nosso país. Deu origem a uma editora discográfica N_records que se iniciou com o 1º álbum dos portugueses Micro Áudio Waves e uma editora de livros N_books que depois de um historial com revistas e pequenas edições lança o marcante livro com cerca de 50 personalidades das artes, do pensamento e da ciência Corpo Fast Forward em conjunro com o Porto 2001.
Em 2002, com datas de 17 a 21 de Novembro (também com uma duração bem curta) este Festival continuou a crescer. Na sua 3ª edição, o Festival com o tema "Sci-Fi Dot Com - O Admirável Mundo da Pós produção e da Ficção Científica" deslocou-se para o Fórum Lisboa e para a gare Marítima de Santa Apolónia. Num ano em que este Festival somou mais públicos (atingindo cerca de 11.000 pessoas) houve uma solidificação da fórmula artes, música, imagem coordenadas por uma vocação eminentemente multimédia. Com várias parceria como a Sonic, a Journeys e Rui Pereira da Zero em Comportamento (agora mentores do recém-criado IndieLisboa) mostrou uma das melhores programações de cinema feitas em Portugal naquele ano. Neste ano em que se fez uma retrospectiva de David Cronemberg, e uma curiosa exposição multimédia intitulada "My own private Lisbon" com cerca de 20 artistas (provenientes da literatura Fernando Guerreiro, Manuel Gusmão, Manuel de Freitas... filosofia Paulo Cunha e Silva, Gonçalo M. Tavares, do cinema Carla Bolito, das artes visuais Rodrigo Oliveira, Marta Wengorovius, Pedro Cabral Santo, Maria Lusitano entre muitos outros). Este Festival contou com a presença de Julee Cruise, (a actriz e cantora do tema de Twin Peaks, de David Linch), Gonzalez, os Plaid (produtores de Bjork...), Erlend Oye, Simon Fisher Turner (autor de bandas sonoras do falecido cineasta britânico Derek jarman), o guru dj de Detroit Carl Craig, Warp Djs (e como convidade extra programa Aphex Twin). Os portugueses ElectroPoppers, o projecto multimédia de Gonçalo Luz e de Miguel Bello, os Bulllet, a performer Tânia Carvalho com Expander, João Peste, entre muitos outros. No cinema a destacar ainda obras dos nomes de peso internacionais Hideo Nakata, Kyoishi Kurosawa, Agust Jakobsen que mostraram filmes inéditos em Portugal...
Em 2003 , Dinis Guarda, Director e fundador do evento, apresenta o programa mais ambicioso de sempre e o "Número Festival" viaja até Londres (até espaços como o ICA ou o Cinema Lumière), sobre a designação de um novo evento o FESTIVAL PORTUGUÊS, respondendo ao interesse crescente pela cultura portuguesa. Por cá, o "Número Festival" faz alusão a uma crise de valores pós-modernista e incentiva o espectador a questionar-se sobre a sociedade do século XXI. "Life Style Krisis - Novas Energias" apela ao espírito empreendedor dos portugueses e dá a conhecer a nouvelle vague da música contemporânea com um dos programas mais ambiciosos até à data. Sob o olhar atento do veterano Andy Fletcher (Depeche Mode), os britânicos Animal Collective, Señor Coconut, Luomo, Derrick May, Alva Noto, Koji Asan, Laub, Micro Áudio Waves, Red Bull Homegrade, assim como Nelson Flip, Mourah, Loosers, X-Wife e Stealing Orchestra exploram novos ambientes em cima do palco; no cinema, o destaque vai para a homenagem ao realizador independente Jim Jarmusch, com a retrospectiva da produtora Open City Films (curiosamente de origem Portuguesa e Norte Americana, responsáveis pela produção de algum do melhor do cinema Norte Americano da actualidade); na área das tecnologias, a organização do "Número Festival" aposta na criação de um fórum tecnológico inédito em Portugal, unindo nos espaços do Festival artistas, cientistas, mostra da história do telemóvel, robots, jogos e trás alguns investigadores que trabalham com a NASA, e organiza em conjunto com o Centro Português de Design e com a escola ETIC e instituições como a Fundação para o Divulgação das Tecnologias da Informação organiza uma série de workshops e ateliers.
Sob o lema "Civilização de Imagens - Civilização de Clichês" , a quinta edição do "Número Festival - Festival Internacional de Multimédia, Filme e Música de Lisboa" abordou, de 3 a 13 Novembro 2004 , a criação/produção contemporânea e o desenvolvimento das políticas culturais e a sua influência na exploração dos "novos media". Mais uma vez, a organização do evento que reforçou a sobriedade, seriedade na sua organização e programação foi à procura de respostas e não se limitou à simples divulgação de sons e imagens. Assim surgiram as conferências Internacionais Gazing at Lisbon City Scape ... os Prémios Portugueses de Multimédia ICAM/NÚMERO com o claro objectivo de reforçar uma área que em Portugal está ao abandono e celebraram-se uma série de protocolos com o programa DIGI-ARTES da UNESCO e com o mítico Festival Austríaco Ars Electronic. No entanto, na retina ficaram as actuações musicais incendiárias dos finlandeses Pan Sonic; de Dani Siciliano, Juana Molina, Funkstorung,Trevor Jackson, Mira Cálix, Ann Shenton, do trio português Micro Audio Waves, dos Nicorette, Ultimate Arquitects na discoteca Lux. No capítulo da imagem, a retrospectiva "Made In Brasil - três décadas do Vídeo Brasileiro" assumiu particular relevância e as mostras de diversas instituições como a Etic e a Universidade Lusófona e ainda uma amostra do melhor do Festival de Avanca revelaram novas tendências e talentos nesta área. Ainda neste cenário seguiu-se com a 2ª edição do concurso para a promoção de conteúdos para a internet de banda larga "Alarga a Tua Vida". Assistiu-se ainda às performances de Degrau Zero de Rui Silveira e Catarina Gageiro e de Patrícia Portela, Flatland que havia de ganhar o Prémio Acarte de 2004...
Há uma luz ao fundo do túnel. Desde que o "Número Festival" abriu as portas ao mundo que a consolidação do projecto é uma realidade tangível. O Número Festival com uma energia e capacidade de trabalho tem demonstrado que é possível estar ao nível do que de melhor se faz em todo o mundo, em Portugal e lutando por uma programação verdadeiramente pluridisciplinar e ao mesmo tempo esforçando-se para entrar nos melhores circuitos de vanguarda internacionais com programação e produção portuguesa (Festival Sonar, (Barcelona), ICA (Londres), Point Ephémère (Paris), Universidade de Sourbonne, Festival Ars Electrónica (Lins, Áustria)...) com uma programação elogiada pela BBC, Canal ARTE, New Musical Express, Vogue francesa, El Mundo, El Pais, Le Monde... Num país onde se apreciam, por vezes, mais as modas que a continuidade, este evento tem mostrado que é possível fazer com mérito e, mesmo com dificuldades, e principalmente lutando contra um eco de "vencidos da vida". Em cinco anos com uma programação ímpar o NÚMERO FESTIVAL tem vindo a criar um evento cada vez mais forte, mais coerente, mais internacional, (aprendendo com os erros e tentando melhorar, edição a edição com humildade e pragmatismo) e que contra ventos e correntes tem provado que há espaço em Lisboa e em Portugal para um projecto dedicado á criação contemporânea multimédia de vanguarda: na imagem (cinema, vídeo e internet), na música, e em todas as novas formas de criação (desde os conteúdos e jogos para telemóveis até filmes e videoclips). Este Festival tem ainda a particularidade de ter sido objecto de vários estudos de referência em Portugal e internacionalmente e sido louvado pela sua capacidade para abrir novos caminhos.